Clínicas Pequenos Animais (Cães)

Desafios na terapia da cinomose
O texto abaixo é uma parte de minha tese de doutorado com algumas modificações para o entendimento da neuropatogenia da cinomose e dos desafios no tratamento desta enfermidade.

          A cinomose é uma doença infecciosa causada por um Morbillivirus pertencente a família Paramyxoviridae, biofisicamente e antigenicamente semelhante ao vírus do sarampo, que pertence ao mesmo gênero do vírus da cinomose. Estes vírus são lábeis, sendo destruídos pelo calor, por detergentes, pela maioria dos desinfetantes e pela dessecação. O vírus da cinomose é transmitido principalmente por aerossóis provenientes de secreções e excreções de animais infectados, sendo a urina é uma fonte importante de infecção. Sua disseminação é rápida entre cães jovens suscetíveis. Existem diversas cepas biologicamente e geneticamente diferentes do vírus da cinomose. Algumas linhagens são levemente virulentas e comumente causam infecções inaparentes, outras causam a doença aguda com elevada frequência de encefalite e elevada mortalidade. Cães infectados pelo vírus da cinomose podem apresentar afecção dos tratos respiratório e gastrintestinal, sendo que até 30% deles têm também complicações neurológicas e aproximadamente 10% morrem por encefalite aguda. Além disso, os cães que recuperam podem apresentar sequelas permanentes. Manifestações neurológicas da infecção pelo vírus da cinomose, caracterizadas como leucoencefalite desmielinizante, podem ocorrer em paralelo ou subsequentemente a outras afecções, mas geralmente têm início de uma a três semanas após a recuperação dos sinais clínicos sistêmicos.

Os processos imunopatológicos e a degeneração axonal inicial que ocorrem na leucoencefalite de cães com cinomose são semelhantes a outras doenças desmielinizantes, tais como esclerose múltipla. O vírus da cinomose provoca uma doença neurológica aguda e progressiva, tanto na substância branca, quanto na substância cinzenta.

A invasão do vírus da cinomose no sistema nervoso central (CNS) ocorre provavelmente por via hematógena com afecção ependimária e da substância branca subependimária. A patogênese da perda de mielina, na leucoencefalite desmielinizante causada pelo vírus da cinomose, é provavelmente um processo bifásico, iniciando-se a infecção pela substância cinzenta, com subsequente disseminação do antígeno para sustância branca.

As lesões da leucoencefalite aguda relacinadas à cinomose são histologicamente caracterizadas por pequeno aumento do número de astrócitos e micróglia, em que 95% de todas as células infectadas são astrócitos. Já foi demonstrado também uma ligeira gliose e vacuolização como as únicas lesões visíveis na cinomose aguda, sem desmielinização. Este tipo de lesão pode ser observada entre 16 e 24 dias após infecção experimental. No entanto, leucoencefalite com desmielinização multifocal do SNC é a lesão mais comum associada à infecção pelo vírus da cinomose, observando-se esse tipo de lesão entre 29 e 63 dias após a infecção. Em cães com lesões neurológicas inflamatórias ou não-inflamatórias de cinomose observa-se sobre-regulação de interleucina (IL)-10. Nos animais com leucoencefalite subaguda ou crônica (lesões inflamatórias) ocorre também sobre-regulação de IL-6, fator de necrose tumoral (TNF)-a e fator de transformação do crescimento (TGF)-ß, portanto, a progressão das lesões parecem decorrer de uma alteração do equilíbrio necessário na expressão de citocinas no SNC, o que torna atrativo o emprego das células-tronco em ensaios clínicos para o tratamento de sequelas da cinomose, visto que o principal efeito das células-tronco recrutadas nos tecidos lesados é a ação parácrina, a qual inclui a expressão de citocinas e fatores de crescimento que possuem efeitos anti-inflamatórios e imunomodulatórios potentes, podendo modular o microambiente local e ativar progenitores endógenos. Dentre os medicamentos, talvez o de maior potencial para uso na estabilização do paciente com cinomose seja o Dimetilsulfóxido (DMSO), pois tem ação tanto anti-inflamatória, como antioxidante e imunomoduladora, podendo contribuir no combate a radicais livres e na regulação das citocinas.

A utilização das células-tronco em terapia regenerativa tem aumentado durante a última década. As pesquisas focam principalmente o uso das células-tronco mesenquimais (CTM), também denominadas células estromais da medula ou células estromais mesenquimais multipotentes. As CTM são células progenitoras multipotentes, com capacidade de auto renovação e estão presentes em vários tecidos adultos, como medula óssea, osso trabecular e tecido adiposo. 

As células mononucleares da medula óssea (CMNMO) compreendem todas as células da medula óssea com núcleo esférico e sem grânulos no citoplasma. Essas características fazem com que as CMNMO tenham densidade e tamanhos similares, e sejam diferentes das células progenitoras mielóides e eritróides. Essa diferença permite a separação física dessas células. As CMNMO adultas são as células progenitoras hematopoiéticas em diferentes estágios de maturação, como células linfóides, monócitos, macrófagos e várias células de linhagem não hematopoiética. Entre as células não hematopoiéticas identificadas na fração mononuclear da medula óssea do homem adulto normal, estão células estromais mesenquimais, células-tronco “embryonic-like”, células progenitoras adultas multipotentes, hemangioblastos, células progenitoras endoteliais e células tronco “tissue-committed”.  

Os resultados de pesquisas in vivo e in vitro demonstraram que as células da medula óssea estão fisiologicamente envolvidas na neovascularização e reparo tecidual. O transplante de medula óssea é utilizado em pacientes com leucemia, mas a partir do ano de 2000 as CMNMO começaram a ser usadas em novas terapias, como no tratamento de doenças isquêmicas (doenças cardíacas isquêmicas agudas e crônicas) e doença arterial periférica. 

As CMNMO são de fácil obtenção e não requerem expansão in vitro antes do uso na terapia regenerativa, porém, sendo uma combinação heterogênea de diferentes tipos de células progenitoras, nem todos os subtipos foram completamente caracterizados e, consequentemente, nem todas as funções são conhecidas. No entanto, CMNMO caninas ainda não foram totalmente caracterizadas e, mesmo para CTM caninas existe pouco consenso sobre a caracterização fenotípica.

Os efeitos benéficos das CMNMO recrutadas à lesão tecidual resultam de mecanismos parácrinos, como produção de citocinas e fatores de crescimento com diferentes funções, como a prevenção de apoptose, citoproteção de células nativas viáveis, efeitos anti-inflamatórios, redução de fibrose e recrutamento de células-tronco específicas, estimulando a angiogenese e regeneração tecidual mediadas por célula progenitoras residentes.  A caracterização dos subtipos de CMNMO, os estudos de migração e a melhor compreensão das funções dessas células podem contribuir para o conhecimento do seu potencial e, consequentemente, incrementar as possibilidades de seu uso em ensaios clínicos na medicina veterinária.

As CMNMO administradas por via intravenosa têm uma passagem pulmonar 30 vezes maior que as CTM, facilitando a migração dessas células para os tecidos lesados. Contudo, a migração dessas células para o SNC, após administração intravenosa, em animais com sequelas de cinomose, por exemplo, ainda não está bem estudada.

Dentre as possibilidades de terapia celular, as CMNMO são atrativas pela facilidade em seu isolamento, não sendo necessária estrutura de laboratório complexa para sua obtenção. Além disso, elas também podem ser recrutadas para os sítios de injuria. 


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