Cardiologia

“Síndrome do coração partido”
Em medicina veterinária?

                A “Síndrome do Coração Partido” representa uma condição clínica primariamente descrita em 1990 na população japonesa por Hiraku Sato, sendo assim intitulada em função da semelhança que o ventrículo esquerdo assume durante a sístole com o “Tako-tsubo” (Tako = polvo, Tsubo = jarro ou vaso), um tipo de armadilha utilizada no Japão para capturar polvos. Alguns anos após, em 2006, passou a compor o grupo das cardiomiopatias adquiridas, segundo classificação da American Heart Association, sendo chamada de cardiomiopatia induzida por estresse (CARDOSO et al., 2005; LEMOS et al., 2008; HOEKSTRA et al., 2014).

Sua origem ainda é incerta, entretanto níveis elevados de catecolaminas encontrados nos pacientes acometidos sugerem que a base da síndrome seja uma estimulação simpática exagerada em resposta ao estresse, tendo como principais vítimas mulheres de meia idade envolvidas por forte estresse emocional (CARDOSO et al., 2005; LEMOS et al., 2008; HOEKSTRA et al., 2014).

Por certo não estamos falando de uma enfermidade típica da medicina veterinária, inclusive buscas em bases de dados científicas com os termos de indexação “cães”, “takotsubo” e “broken-heart syndrome” resultam improdutivas. Logo, a questão: Por qual razão abordamos este enredo neste espaço tipicamente dedicado a veterinária?

As cardiopatias comuns no ínterim da medicina veterinária são eventos recorrentes na rotina do clínico, sejam valvulopatias, cardiomiopatias, congênitas, adquiridas, etc... Grande parte deste universo mostra-se limitada em termos de terapias definitivas, que possam, de fato, curar o paciente, salvo alguns casos cirúrgicos pontuais. Destarte, resta, então um amplo leque de fármacos, que visam sumariamente a contenção e remissão dos sinais clínicos, provendo mais conforto, qualidade de vida e uma maior sobrevida aos pacientes.

Todavia, existem fatores alheios a fisiopatologia da enfermidade cardiovascular, muitas vezes associados ao manejo inadvertido do paciente, que corroboram ao insucesso da terapia. Exemplos, são vários: tutores que insistem na prática exagerada de atividades físicas, que expõe seus animais a temperaturas extremas (frio ou calor), ruídos em excesso (fogos de artifício, por exemplo), que fazem uso de substancias anabolizantes em seus animais, ou que talvez permitam grande proximidade entre machos e fêmeas em período reprodutivo, ou ainda “abandonem” temporária (animais que sofrem de ansiedade de separação) ou definitivamente seus animais.

Em efeito, estas e outras condições possuem um ponto em comum. Tratam-se de eventos que promovem uma carga de estresse importante aos pacientes, que assim como na cardiomiopatia de Takotsubo, o elevado envolvimento adrenérgico atua de forma ímpar sobre o coração, senão sendo o evento causador da enfermidade como naquela descrita por Hiraku Sato, atuando como fator hipertensivo e de consumo energético adicional, que se não observados, podem influenciar sobremaneira no insucesso terapêutico e até concorrer para o óbito do paciente.

            Talvez apenas os dois últimos eventos supracitados atendam ao conceito mais “romântico” da “síndrome do coração partido”, o que nos faz afirmar que elementos como carinho e atenção são indispensáveis como adjuvantes no processo de recuperação dos nossos pacientes. Para os demais eventos, estar sempre atento as recomendações gerais de manejo do paciente cardiopata, proferidas por profissionais médicos veterinários, pode soar de forma limítrofe entre o sucesso ou insucesso no transcurso da terapêutica cardiovascular do seu pet.  

 

Felipp da Silveira Ferreira

Patrono Cardiologia - ABVET

 

CARDOSO, R.F., et al. Síndrome de Tako-Tsubo: Relato de caso e revisão da literatura. Revista da SOCERJ, v.18, n.2, p.172-175, 2005.

LEMOS, A.E.T, et al. Broken-Heart Syndrome (Takotsubo Syndrome). Arquivo Brasileiro de Cardiologia, v.90, n.1, p. e1-e3, 2008.

HOEKSTRA, B.E., et al. Doença de Takotsubo (Síndrome do Coração Partido): uma Doença Subdiagnosticada? Revista da Sociedade Brasileira de Cardiologia, v.27, n.5, p. 327-332, 2014.